Tessituras em diálogos. Volume x, 2022

Histórias que devemos contar sobre algumas mulheres

Professora na Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais (FaE/CBH/UEMG). Graduada em História, mestre e doutora em História Social da Cultura, pelo Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Eu fiquei pensando numa data significativa para escrever este texto. Várias possibilidades me passavam pela cabeça, mas nenhuma delas seduzia meus pensamentos a ponto de ser registrada em um texto. Até que ontem, dia 23/08, me deparei com uma data extremamente significativa para mim e meus estudos sobre gênero. O dia 23 de agosto é celebrado pela Organização das Nações Unidas (ONU), como o Dia Internacional em Memória do Tráfico de Escravos e sua Abolição. A escolha desta data faz referência à revolta da Ilha de Santo Domingo, que em 1791, levou à independência o Haiti – país caribenho que enfrenta, até hoje, sérios problemas de ordem socioeconômica e política. E que, frequentemente, é confundido com países do continente africano — numa explícita alusão aos estereótipos e visões colonizadas que temos acerca de territórios, ocupados majoritariamente por populações negras. Mas este é um tema para outro texto. Retomemos a data em questão. 

A revolta de Santo Domingo, comandada por africanos escravizados, evidenciou o agenciamento destes sujeitos, deslocando-os, definitivamente, para o papel de “sujeitos históricos”, pois o Haiti se tornou a primeira república governada por descendentes de africanos. Pouco se fala acerca do papel das mulheres nesta revolta, ou mesmo da presença de mulheres em outros movimentos revolucionários e abolicionistas nas Américas. Mas as lutas cotidianas travadas por estas africanas escravizadas foram extremamente significativas e contribuíram, a longo prazo, para que seus descendentes pudessem ter a liberdade como perspectiva de vida. E é sobre algumas destas mulheres, anônimas da História, que pretendo falar.

A minha pesquisa de mestrado, defendida no ano de 2011 no programa de Pós-graduação em História da UFMG, enfatizou as histórias e o protagonismo de mulheres africanas, trazidas para o Brasil como escravizadas e que conseguiram comprar a própria liberdade — num contexto de extrema violência e opressão colonial, da região das Minas Gerais. Suas trajetórias, permeadas de estratégias de sobrevivência e muito traquejo social, estão relatadas em fragmentos de documentos históricos: testamentos e inventários post-mortem, através dos quais é possível conhecer os aspectos culturais, religiosos e materiais de suas existências.

As mulheres em questão são as chamadas alforriadasou forras. Homens e mulheres escravizados podiam ser libertados da escravidão, por diferentes formas de alforria. Havia a alforria incondicional que libertava os cativos de forma “gratuita”; as alforrias condicionais — quando eram estabelecidas certas obrigações até que o cativo pudesse alcançar sua liberdade. E havia ainda as alforrias concedidas no ato do batismo. Mas nas Minas, predominava uma forma particular de alforria, chamada de coartação, que pode ser definida, a grosso modo, como a compra parcelada da liberdade, por meio de um acordo firmado entre o proprietário e o escravizado. 

Embora existissem estas “brechas” no regime daescravidão, para que os cativos alcançassem a liberdade, antes da referida abolição da escravatura, é preciso lembrar que estas não foram situações generalizadas ou de fácil acesso. A existência das possibilidades de alforria não elimina a crueldade da escravidão atlântica e não apaga da história colonial, os inúmeros escravizados que perderam suas vidas durante a travessia atlântica ou nas minas, plantações e casas-grandes Brasil afora. Eis aí o que a escritora nigeriana Chimamanda Adichie chamou de “o perigo de uma história única”: a trajetória de algumas mulheres alforriadas não ameniza ou apaga o terror dos navios negreiros ou das inúmeras mortes provocadas pela escravidão. 

Na minha pesquisa, encontrei Marianas, Marias, Terezas, Marcelas e outras mulheres de origem africana, identificadas nas fontes históricas com seus nomes “coloniais”, atribuídos pelo batismo católico e por seus proprietários escravistas. Muitas delas se declaravam como vindas da “Costa da Mina”, numa menção genérica, como muitos estudiosos pressupõem, ao porto africano no qual eram embarcadas. A ausência das informações sobre a vida destas mulheres no continente africano, já é um indício do apagamento e negação de humanidade que a instituição da escravidão atlântica lhes impunha. Ainda assim, (re)existiram em um contexto totalmente desfavorável. Esse era o caso, por exemplo, da alforriadaRosa da Silva Torres.

A liberta Rosa da Silva Torres, era dona do maior monte-mor encontrado na documentação dos libertos pesquisados. Era casada com o preto forro Antônio da Costa Barboza e tinha dois filhos: Antônio da Silva Torres, que foi classificado como pardo, tinha vinte e dois anos e era filho somente de Rosa; e Tereza crioula, de doze anos, que era “filha legítima do matrimônio”; ambos herdeiros da mãe. Rosa e seu marido eram proprietários de muitos bens e através da listagem de suas posses pode-se inferir que os investiam em várias atividades econômicas, desde a plantação de mandioca, para a produção de farinha até a exploração de “terras de minerar”. 

Já a liberta Tereza de Oliveira, moradora do arraial de Catas Altas, no ano de 1778, declarava-se como natural da Costa da Mina. Era solteira e mãe de quatro filhos.Possuía, além de uma casa, com quintal e bananal, vários tachos de cobre em diferentes tamanhos e pesos e ainda algumas joias. Tereza estava envolvida com o pequeno comércio, e declarava que várias pessoas a deviam e que tudo estava registrado em seu livro de assentos. Os devedores de Tereza eram, em sua maioria, forros e escravizados — o que sugere a construção de uma rede,não só econômica entre estes indivíduos, mas também a criação de mecanismos de solidariedade e sociabilidade. 

A forra Rosa Soares Bernardes, também natural da Costa da Mina e moradora na cidade de Mariana no ano de 1787, também estava envolvida com o pequeno comércio.Entre seus bens destacavam-se uma caixinha de guardar doces com fechadura; barris; bacias de cobre de fazer doce; uma chocolateira; tachos e pratos de cobre. Já aforra Francisca da Conceição, natural da Costa da Mina e moradora no arraial de Bento Rodrigues no ano de 1781, era solteira e sem filhos. Francisca declarou que havia adquirido todos os bens por seu próprio trabalho e indústria. Ela era dona de uma venda. Na relação de seus credores, há uma dívida proveniente da compra de cargas do Rio de Janeiro e Francisca declarou que comprou as cargas para a venda que possuía. 

A liberta Mariana Francisca Lopes, moradora em Mariana no ano de 1804, vendia hortaliças para complementar sua renda. E a forra Tereza Maria de Jesus, que teve seu inventário de bens feito no ano de 1790, possuía vários cortes de tecido; muitas fitas, de variadas cores; pedaços de renda; algodão fiado e com caroço; pedaços de entremeio – uma espécie de renda bordada, em tiras, entre espaços lisos; linhas e cortes de saias. Tais materiais sugerem o envolvimento desta liberta com a atividade de costureira.

Estes fragmentos de trajetórias das mulheres africanas alforriadas sugerem que muitas delas foram autoras de estratégias e de mecanismos econômicos que as sustentavam e que também possibilitavam certa ascensão econômica, em plena sociedade colonial. Além disto, é preciso considerar que o envolvimento destas mulheres com o pequeno comércio local, possibilitava a inserçãodelas em diálogos diversos, a participação na elaboração de estratégias e no auxílio a seus pares. A mobilidade social experimentada por essas mulheres africanas libertas chamava a atenção das autoridades coloniais, como relatado em uma petição da Câmara de Mariana, no ano de 1755. Para os oficiais da Câmara de Mariana, a população forra era responsável por uma série de transtornos: auxiliavam cativos em planos de fugas, acobertavam escravizados fugidos e representavam uma constante ameaça à ordem daquela sociedade.

As trajetórias que aqui brevemente relatamos nos ajudam a recuperar a ideia de que a História é um processo e que a própria abolição da escravatura, não pode ser compreendida como um acontecimento pontual, gracioso e benevolente. Tratou-se um longo e penoso processo histórico, que envolveu diferentes sujeitos, em articulações e arranjos cotidianos diversificados. E a participação de mulheres africanas forras na construção de estratégias de liberdade e que desafiaram a ordem escravista foi, sem dúvidas, um ponto importante deste processo. São histórias de mulheres que merecem ser contadas, recontadas e conhecidas, não apenas para relembrar o tráfico de escravizados e a abolição, mas para reafirmar a participação feminina nestes capítulos cruciais da nossa história.

*O monte-mor do inventário é a soma de todos os bens existentes quando o inventário foi aberto.

Aquarela elaborada com base nos documentos históricos da alforriada Rosa da Silva Torres. Arte: Geyson Flinn, 2019.

Referências bibliográficas

ADICHIE, Chimamanda N. O perigo de uma história única. Palestra no evento Tecnology, Entertainment and Design (TED), em 2009. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qDovHZVdyVQ

ALVES, Rogéria Cristina. Mosaico de forros: formas de ascensão econômica e social entre os alforriados (Mariana, 1727-1838). Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2011. Disponível em: https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/BUOS-8SRP67 

Arquivo Histórico da Casa Setecentista de Mariana (doravante citado como AHCSM). 2º Ofício. Inventário post-mortem de Rosa da Silva Torres. Data: 1742. Códice 63, auto 1423.

AHCSM. 1º Ofício. Testamento de Tereza de Oliveira. Data: 1778. Livro 57.

AHCSM. 1º Ofício. Inventário post-mortem de Rosa Soares Bernardes. Data: 1787. Códice 124, auto 2599.   

AHCSM. 1º Ofício. Testamento de Francisca da Conceição, Data: 1781. Livro 57.

AHCSM. 1º Ofício. Testamento de Mariana Francisca Lopes. Data: 1804. Livro: 40.

AHCSM. 1º Ofício. Inventário post-mortem de Tereza Maria de Jesus. Data: 1790. Códice 122, auto 2541.

Arquivo Histórico Ultramarino. Projeto Resgate. Documentos relativos à Capitania Mineira. Caixa 67, documento 61.

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