Tessituras em diálogos. Volume x, 2022

Origens históricas do dia 08 de Março

Professora adjunta da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais (FaE / CBH / UEMG). Professora do quadro permanente do Programa de Pós-Graduação stricto sensu – Educação e Formação Humana – PPGE/FaE-UEMG. Coordenadora do Núcleo de Pesquisa Tessituras de nós: núcleo de estudos, pesquisa e extensão em gênero, sexualidade e educação.
Mestranda no Programa de Pós-graduação Stricto Sensu Mestrado em Educação e Formação Humana da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais. 

“Pão, Paz e Terra!”

Você sabia que essa pode ser uma das frases mais marcantes em relação ao Dia Internacional da Mulher? Isso porque representa a grande manifestação que levou milhares de mulheres às ruas na, atual, Rússia em 1917, possibilitando enormes mudanças políticas e sociais. E, a partir de então, passou-se a adotar a data 23 de fevereiro (calendário juliano), para nós 8 de março, como Dia Internacional da Mulher Trabalhadora. 

Lendo a epígrafe podemos perceber que, por muito tempo, a história se esqueceu de trazer as mulheres como protagonistas dos acontecimentos da humanidade, como se a elas fossem destinados apenas à reprodução e o mundo do lar. Especificamente, o século XIX ocidental levou à divisão das tarefas e a segregação sexual nos espaços:

Lugar das mulheres: a maternidade e a casa cercam-na por inteiro. A participação feminina no mercado de trabalho assalariado é temporária, cadenciada pelas necessidades da família, a qual comanda, remunerada com um salário de trocados, confinadas as tarefas ditas não qualificadas (…) ao homem a madeira e os metais. À mulher, a família e os tecidos. (PERROT, 2017, p. 198). 

As mulheres são mais representadas e imaginadas pelos homens do que protagonistas das próprias histórias. Atuando sempre no seio da família, confinadas em casa, elas são/eram invisíveis. E, o que importa, é pensar as mulheres também em ação, inovando suas práticas, criando elas mesmas a história em movimento, mesmo porque uma história “sem mulheres” parece impossível atualmente. 

Nos “mundos do trabalho” não foi diferente. Sempre trabalhando, seja na ordem do doméstico – da reprodução – ou das fábricas, elas não eram valorizadas, não eram visibilizadas. O primeiro não as remunerava e o segundo sem direitos garantidos. A industrialização do século XIX, a manufatura das fábricas, o conciliar trabalho doméstico com as longas horas nas fábricas, tudo isso tornou-se, paulatinamente, algo de mudança profunda na vida das mulheres. Segundo Michelle Perrot: 

O trabalho é temporário. As operárias passam a vida toda na fábrica; são admitidas muito jovens, desde 12 ou 13 anos, permanecem no trabalho até o casamento ou até o nascimento do primeiro filho, voltando a trabalhar mais tarde, quando os filhos estão criados, e, se necessário, com eles. (PERROT, 2017, p. 119).

Além disso, as condições de trabalho nas fábricas eram péssimas: máquinas mal protegidas, acidentes – dedos e mãos cortados, jornadas longas: até 14 horas no começo da industrialização e de cerca de 10 horas por volta de 1900. Locais desconfortáveis, mal arejados, sem refeitórios ou vestiários, isso sem contar os assédios sexuais que sofriam. 


Origens do dia 8 de março: Rússia, 1917 – “Pão! Nossos filhos estão morrendo de fome!”

Trabalhadoras russas do setor de tecelagem entraram em greve, enfrentando não somente a ditadura do Czar Nicolau II, mas também a aversão dos homens trabalhadores que ainda resistiam à participação feminina na política. Sob a palavra-de-ordem de PÃO, PAZ E TERRA as mulheres saíram às ruas em protesto às péssimas condições de vida e pela saída russa da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Em 26 de fevereiro, no calendário Juliano, utilizado até 1918, mais de 190 mil mulheres foram às ruas em protesto contra as péssimas condições de trabalho e vida, levando ao estopim que desencadeou uma grande revolução derrubando a ditadura Czarista.


Versão dita como “oficial”

Muito do que popularmente se conhece em relação ao 8 de março está relacionado à ideia de que houve nessa data um incêndio em uma fábrica em Nova York que teria matado 130 mulheres em no ano 1857. Este fato se tornou símbolo histórico da luta contra as péssimas condições de trabalho a que eram submetidas, como jornadas de 16 horas. Havia todo um contexto histórico, como dito acima. 

A narrativa principal diz que as mulheres estavam trancadas dentro da fábrica porque realizavam greve. Mas relatos apontam que naquele período nenhuma greve havia sido instaurada. Naquela época os trabalhadores eram trancados nas fábricas e os relógios cobertos, para não terem noção do tempo trabalhado. Entretanto, durante 10 anos, a pesquisadora canadense Renée Côté analisou arquivos dos EUA, Europa e Canadá e não encontrou referências a história do incêndio supostamente ocorrido em 8 de Março. Ela escreveu o livro “O Dia Internacional da Mulher – Os verdadeiros fatos e datas das misteriosas origens do dia 8 de março, até hoje confusas, maquiadas e esquecidas”


Greve das operárias estadunidense em 1909 

Mas o que historicamente é verdadeiro é que cerca de 15000 mulheres paralisaram seus trabalhos durante 13 semanas, provocando o fechamento de mais de 500 fábricas. As ações de greve foram dirigidas pela Associação dos Trabalhadores Hebreus e o Sindicato Internacional de Trabalhadores na Confecção de Roupas de Senhoras (International Ladies’ Garment Workers’ Union – ILGWU). Houve prisões e tentativas de contratar novas trabalhadoras.

“Estou cansada de ouvir oradores falarem em termos gerais. Estamos aqui para decidir se entramos em greve ou não. Proponho que seja declarada uma greve geral agora!”. A plateia apoiou de pé a moção da jovem Clara Lemlich. (sindicalista que liderou a revolta dos Vinte Mil em 1909, na cidade NY)


E no Brasil…

No Brasil, de início do século XX, tal contexto europeu também era bem similar. Nesse período, grande parte do proletariado era constituída por mulheres e crianças. Conforme Margareth Rago,

Em 1894, dos 5.019 operários empregados nos estabelecimentos industriais localizados em São Paulo, 840 eram do sexo feminino e 710 eram menores, correspondendo a 16,74% e 14,15%, respectivamente, do total de proletariado paulistano. Na indústria têxtil, encontravam-se 569 mulheres, o que equivalia a 67,62% da mão de obra feminina empregada nesses estabelecimentos fabris. Nas confecções havia aproximadamente 137 mulheres. Já em 1901, um dos primeiros levantamentos sobre a situação da indústria em São Paulo constata que as mulheres representavam cerca de 49,95% do operariado têxtil enquanto as crianças respondiam por 22,79%. Em outras palavras, 72,74% dos trabalhadores têxteis eram mulheres e crianças. (RAGO, 2017, p. 581). 

Contudo, apesar do elevado número de trabalhadoras presentes nos primeiros estabelecimentos fabris do país, elas não foram, progressivamente, substituindo os homens no mercado de trabalho. Pelo contrário, aos poucos, foram expulsas do mundo fabril à medida que a industrialização incorporava cada vez mais a força de trabalho masculina. (RAGO, 2017). A luta das mulheres era constante a fim de se manterem no trabalho fora das casas. Os obstáculos eram inúmeros (como alguns já citados), sendo um dos piores: a hostilidade com que o trabalho feminino fora de casa era tratado no interior das famílias. A independência financeira das mulheres era algo que os homens procuravam combater, desqualificando o trabalho feminino e os mantendo com os privilégios na esfera pública.1 

Citando Virginia Woolf, as mulheres ganharem o próprio dinheiro pode lhes gerar a liberdade de ir e vir, de opinar, de viver: “Ela não precisa mais usar da sedução para depender do dinheiro do pai, do irmão do marido. Uma vez que está fora do alcance do poder da sua família puni-la financeiramente, ela pode expressar suas próprias opiniões.” (WOOLF, 2019, p. 22).

Nesse sentido, algumas feministas desse período, no Brasil, iniciaram a divulgação de seus próprios ideais. Destaque para a Revista Feminina (1914-1936) que defendia os benefícios do trabalho feminino fora do lar, pois uma mulher independente financeiramente, “comprometida com os problemas da pátria”, educada, intelectualmente ativa, bem instruída e disciplinada, poderia edificar o lar e até mesmo o seu lado materno. (RAGO, 2017).

Já as mulheres negras, no Brasil, pós-1888, continuaram trabalhando nos setores considerados mais desqualificados, recebendo salários baixíssimos e péssimo tratamento, além de serem apresentadas, na documentação disponível, como figuras extremamente rudes, bárbaras e promíscuas, destituídas, por conseguinte, de qualquer direito de cidadania. Angela Davis, em seu livro Mulheres, raça e classe, discutiu como a abolição da escravidão e a ascensão do chamado “trabalho livre” nas Américas fomentou a reconfiguração das relações sociais e de diversas formas de opressões (de classe, sexo e raça). Para Davis (2016, p. 19), “a construção e seleção de padrões sexuais, hierarquizar sujeitos de acordo com as necessidades e conveniências do sistema produtivo de bens e serviços”, criaram a ideia de “lugares sociais”. Discutindo as opressões de classe, sexo e raça, Davis analisou as ressignificações sociais para legitimar hierarquias e relações de poder tipicamente capitalistas. Ainda assim, para a autora, o estabelecimento dos nexos causais entre capitalismo, sexismo e racismo evidenciou uma história não linear, repleta de contradições, entre diversos movimentos e lutas de resistência das mulheres, dos negros e dos/as trabalhadores/as. (DAVIS, 2016). 

Assim, a abolição da escravatura não significou a libertação do povo negro. Pelo contrário, acentuou sua condição de marginalizado, enquanto o “desenvolvimento industrial” abria as portas para a mão de obra branca proveniente da Europa. Nessa mesma época, a mulher negra teve o papel preponderante de garantir a sobrevivência da sua família via serviços domésticos mal remunerados e não realizados por mulheres brancas, sobretudo àquelas vinculadas às elites.


1ª Greve Geral de 1917 no Brasil

Foi iniciada por mulheres operárias na cidade de São Paulo, teve duração de 30 dias. Elas reivindicavam principalmente a redução da carga horária, aumento dos salários e contra o assédio sexual. Aos poucos o estado todo estava paralisado e a greve alcançaria o Rio de Janeiro, Porto Alegre e até Poços de Caldas no Sul de Minas. Demonstra o potencial das mobilizações internacionalmente, já que também teve influência do movimento na Russo.


ONU declara o dia internacional da mulher

A primeira vez que se comemorou o Woman’s Day foi em fevereiro do ano de 1909 organizado pelo Partido Socialista Americano. Inspirada nessa experiência das americanas, Clara Zetkin, professora, jornalista e política marxista alemã, propôs, na Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, em 1910, a criação de uma jornada de manifestações anualmente, a fim de paralisar as fábricas para chamar a atenção da sociedade às demandas feministas. A conferência, realizada em Copenhague, Dinamarca, reuniu mais de 100 mulheres de 17 países que pertenciam a sindicatos, partidos socialistas, associações de trabalhadoras e as 3 primeiras mulheres eleitas no parlamento da Finlândia. A proposta de Zetkin foi aprovada e assim se celebrou pela primeira vez na Áustria, Dinamarca, Suíça e Alemanha o Dia Internacional da Mulher.

No ano de 1975 foi instituído pela ONU (Organização das Nações Unidas) o Dia Internacional da Mulher, 8 de Março. A Conferência Mundial do Ano Internacional da Mulher começou no Ginásio Juan de la Barrera, na Cidade do México, em 19 de junho de 1975. Esse dia teve uma importância histórica porque levantou um problema que não foi resolvido até hoje. A desigualdade de gênero, onde condições de trabalho, vida, saúde, etc. ainda são piores para as mulheres.

Assim, muitas são as lutas das mulheres, ao longo da História, marcando esse dia não apenas como algo a se comemorar. Mas um dia para refletir ainda sobre as desigualdades de classe, de raça e de gênero. Entender que o significado dessa data é uma contribuição importante para a reflexão sobre os desafios, as formas de organização e as reivindicações que mobilizam a luta das mulheres até os dias de hoje. 

Notas:

1-  A fábrica era descrita como “antro da perdição”, “bordel” , enquanto a trabalhadora era vista como uma figura totalmente passiva e indefesa. Essa visão direcionava a mulher para a vida privada. Os argumentos de médicos, higienistas, juristas e jornalistas apelavam para o papel de mãe “que não consiste em abandonar os filhos em casa e ir para a fábrica trabalhar”, acreditando que o trabalho da mulher fora de casa destruiria a família. (RAGO, 2017, p. 585).

“Trabalhadoras, peguem os rifles” (1917). Fonte: https://operamundi.uol.com.br/sociedade/46575/agitprop-na-revolucao-russa-veja-8-cartazes-sovieticos-em-que-a-mulher-e-protagonista
25 de Março, 1911 – Nova York Fonte: https://www.socialistamorena.com.br/as-129-mulheres-que-morreram/
Protesto de mulheres em Nova York (1909). Fonte: https://www.ambientelegal.com.br/dia-internacional-da-mulher-as-verdadeiras-historias-por-tras-do-8-de-marco/
Fonte: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-39740614
ONU declara o dia internacional da mulher. Fonte: https://www.un.org/en/events/womensday/history.shtml

Referências bibliográficas

Referências:

BBC NEWS. Dia Internacional da Mulher: a origem operária do 8 de Março. 08 de mar. 2018. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43324887. Acesso em: 08 de mar. 2022.

DAVIS, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo. 2016.

CENTRO DE MEMÓRIA SINDICAL. A carta das mulheres grevistas de 1917. 11 de jul. 2017. Disponível em: http://memoriasindical.com.br/formacao-e-debate/carta-das-mulheres-grevistas-de-1917/. Acesso em: 08 de mar. 2022.

COSTA, Camila. 1ª greve geral do país, há 100 anos, foi iniciada por mulheres e durou 30 dias. BBC News. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-39740614. Acesso em: 08 de mar. 2022.

CUNY ACADEMIC COMMONS. Introduction. Disponível em: Clara Lemlich Shavelson https://clara.commons.gc.cuny.edu/. Acesso em: 08 de mar. 2022.

GELEDES. Hoje na História, 1975, a ONU oficializa o dia 8 de Março como Dia Internacional da Mulher. 08 de mar. 2012. Disponível em: https://www.geledes.org.br/hoje-na-historia-1975-onu-oficializa-o-dia-8-de-marco-como-dia-internacional-da-mulher/. Acesso em: 08 de mar. 2022.

GONZÁLEZ, Ana Isabel Álvarez. As origens e a comemoração do dia internacional das mulheres. 1 ed. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2010. Disponível em: http://www.sof.org.br/wp-content/uploads/2010/03/Origens-Dia-Internacional-das-Mulheres-PAG-de-credito.pdf. Acesso em: 08 de mar. 2022.

INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS. A última fogueira das mulheres. A memória dos direitos civis. 07 de mar. 2011. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/41178-a-ultima-fogueira-das-mulheres-a-memoria-dos-direitos-civis. Acesso em: 08 de mar. 2022.

LIMA, Daniela. Às que vieram antes de nós: histórias do Dia Internacional das Mulheres. BOITEMPO, 07 de mar. 2016. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2016/03/07/as-que-vieram-antes-de-nos-historias-do-dia-internacional-das-mulheres/. Acesso em: 08 de mar. 2022.

MODELI, LAIS. Nada de incêndio na fábrica! Esta é a verdadeira história do 8 de março. Revista AzMina. 07 de mar. 2017. Disponível em: https://azmina.com.br/reportagens/esqueca-o-incendio-na-fabrica-esta-e-a-verdadeira-historia-do-8-de-marco/. Acesso em: 08 de mar. 2022.

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PERROT, Michelle. As mulheres ou os silêncios da história. Florianópolis: Edusc, 2005. 

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PERROT, Michelle. Os excluídos da História: operários, mulheres e prisioneiro. 7 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017. 

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WOOLF, Virginia. Três Guinéus. Belo Horizonte: Autêntica, 2019. 

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